
Serão as competências o novo ouro negro das organizações?
Serão as competências o novo ouro negro das organizações? Li esta pergunta há dias num artigo sobre as conclusões do South by Southwest (um dos maiores eventos americanos sobre inovação e tecnologia) e desde então não me sai da cabeça. Porque está muito bem formulada e de uma forma metafórica resume na perfeição aquilo em que acredito e que tem orientado a minha missão: contribuir para o desenvolvimento das competências que faz de nós únicos e humanos.
Há muito que antevemos que as competências, sobretudo as chamadas competências pessoais e comportamentais, nos vão permitir sobreviver num mercado de trabalho cada vez mais global e digital, onde grande parte das nossas tarefas, e muitas das nossas profissões, vão deixar de existir, mas também onde muitas profissões novas vão surgir. Sabíamos que estava aí ao virar da esquina, mas não pensávamos (eu pelo menos não pensei) que nos batesse à porta tão rápido.
Nas últimas semanas, as notícias de despedimentos em massa em alguns dos gigantes mundiais têm surgido um pouco por todo o lado, com os media a dar destaque aos muitos milhares de trabalhadores que serão dispensados porque a sua função vai passar a ser executada por IA, colocando em evidência a urgência do desenvolvimento de competências e da (re)capacitação. “Quer eu queira, quer não queira”, a IA obriga-me a mudar de comportamento e a aprender, se não quiser ficar para trás, fora do mercado de trabalho e manter-me relevante e ‘empregável’.
Somos nós, humanos, quem tem a última palavra
Como ouvia no outro dia num evento, “A IA põe e o homem dispõe”. A IA põe à nossa disposição uma série de soluções que facilitam e potenciam o nosso trabalho, mas somos nós, humanos, quem tem a última palavra. Somos nós que temos o poder de questionar, analisar, controlar e decidir.
Acredito piamente que a IA é sobretudo um desafio humano que nos força a mudar a forma como atuamos e coloca em evidência as nossas competências raras. Aquelas competências que fazem de nós humanos, como a autenticidade, a empatia, o espírito crítico, o pensamento estratégico, a inteligência emocional, a criatividade e a inovação. Competências que nos permitem competir num mercado de trabalho cada vez mais híbrido, onde pessoas e agentes inteligentes concorrem na execução de funções mais básicas e indiferenciadas. Um mercado onde temos de aprender a trabalhar com ‘colegas’ virtuais e a delegar parte das nossas tarefas nestas ‘máquinas’, mas acima de tudo onde temos de colocar em evidência as competências que nos permitem supervisionar estes agentes inteligentes e garantir a qualidade do nosso trabalho.
A IA como mais um elemento da equipa, que me ajuda a ir muito mais rápido
Não sou, nem nunca fui um ‘velho do Restelo’, gosto e preciso da mudança para me sentir viva, mas confesso que a velocidade a que as coisas estão a acontecer deixa-me alucinada e com muitas borboletas na barriga… Uma coisa é assumir que tenho de estar preparada, mas ter tempo para estudar, pensar, discutir, refletir, partilhar e aos poucos ir experimentando e integrando. Outra bem diferente é, de um dia para o outro, passar a utilizar a IA como mais um elemento da equipa, que me ajuda a ir muito mais rápido, mas que, à medida que vou usando, me vai causando uma sensação de ‘dependência’ e me levanta muitas dúvidas e me faz colocar muitas questões para as quais ainda não tenho resposta: Será ético usar estas ferramentas para me ajudar a ‘brilhar’? Não estarei a ser facilitista? Não deveria demorar mais tempo a fazer isto para ter qualidade? Como é que é possível que seja assim tão simples? O que é que me está a escapar?…
Mas uma coisa é certa, saber usar a IA será como aprender a ler ou escrever. Sem essas skills seremos analfabetos e estaremos fora do mercado de trabalho. Tal como se não colocarmos em evidência as nossas competências raras, flexíveis e adaptáveis, que evoluem junto com a inteligência artificial e a digitalização das tarefas.
E como podemos nós nas organizações ajudar as nossas equipas a desenvolver essas competências raras para ‘dispor’ da IA? Como podemos ‘extrair’ este novo ouro negro e transformá-lo num verdadeiro ativo estratégico? Por um lado, interiorizando que “se não formamos, não transformamos” e por outro, investindo verdadeiramente em formação, colocando os orçamentos de L&D no mesmo patamar dos orçamentos de tecnologia.
De que nos serve gastar milhões em tecnologia se não tivermos pessoas capacitadas (e motivadas) para a usar?
De que nos serve gastar milhões em tecnologia se não tivermos pessoas capacitadas (e motivadas) para a usar? E quando penso nisso, a primeira imagem que me ocorre é a de uma repartição de finanças no início dos anos 90, totalmente equipada com computadores de última geração, lindos e imaculados, mas apenas a servir de adorno às secretárias. Olhados de lado por todos, como se de um bicho raro se tratasse, sem que ninguém percebesse muito bem o que é que estão ali a fazer, pois nunca tiveram qualquer intenção de os usar, nem tão pouco qualquer curiosidade de experimentar e tentar perceber para que servem e de que forma os podem ajudar…mas sempre muito bem adornados com napperons multicolores, ainda que por vezes cobertos de pó… E não digo isto em tom de troça ou menosprezando qualquer dos colaboradores de uma repartição de finanças (ou de uma qualquer outra organização), antes pelo contrário. Digo isto para colocar em evidência de que por detrás deste tipo de decisão estratégicas tem de existir a consciência de que investir na transformação digital e tecnológica não é apenas investir em tecnologia. Isto foi assim nos anos 90, é assim agora na era da IA e será assim no futuro com a computação quântica e com qualquer outra tecnologia que está por vir.
Formar é despertar no outro a vontade de querer aprender a aprender
Repito, “se não formamos, não transformamos”! Formar é despertar no outro a vontade de querer aprender a aprender. Formar é somar, é acrescentar. Acrescentar conhecimento, ensinar a pensar, mas sobretudo cultivar a curiosidade e a capacidade de questionar. É aprender a analisar, interpretar, a colocar cenários e a decidir. É experimentar, e errar. É descobrir e criar novos caminhos.
E para transformar a formação nesta ‘arma de transformação massiva’ temos de deixar de olhá-la como um remédio para uma dor momentânea com efeitos imediatos, para passarmos a entendê-la como um processo vivo e contínuo. Cada um de nós tem de colocar o treino, o desenvolvimento de competências e a aprendizagem na lista das nossas atividades diárias, como fazemos com a prática de desporto ou com os períodos de descanso e cada uma das nossas organizações tem de transformar-se numa organização de aprendizagem, onde se dá prioridade às competências e se estimulam os colaboradores a crescer.



