Novas Ferramentas de Trabalho na Investigação: Entre a Velocidade e o Essencial Humano

Antónia Correia, CEO, KIPT COLAB

Novas Ferramentas de Trabalho na Investigação: Entre a Velocidade e o Essencial Humano

A investigação é, antes de mais, um exercício de reflexão crítica que exige intervenção humana. Algoritmos, por mais sofisticados que sejam, não leem nas entrelinhas, não intuem contradições, nem assumem responsabilidade ética. A investigação é mais do que uma profissão: é um estilo de vida. Espíritos inquietos e curiosos prosseguem numa procura incessante pelo conhecimento, porque o “só sei que nada sei” é,  talvez, o verdadeiro modus vivendi do investigador. Uma disponibilidade permanente para aprender, desaprender e voltar a perguntar.

Algoritmos, por mais sofisticados que sejam, não leem nas entrelinhas, não intuem contradições, nem assumem responsabilidade ética

Durante grande parte do século passado, investigar implicava idas recorrentes às bibliotecas, pilhas de fotocópias e a esperança de encontrar, numa estante específica, o artigo certo. Hoje, as bases de dados digitais e as políticas de open access revolucionaram completamente este processo, tornando-o incomparavelmente mais rápido e eficiente. Com meia dúzia de palavras-chave ou filtros bem aplicados, acedemos a terabytes de investigação sobre praticamente qualquer tema, à distância de um ou dois cliques. A magia da multiplicação exponencial do conhecimento torna-se aqui evidente.

Mas importa não confundir dados com informação. A abundância, sem curadoria, transforma-se rapidamente em ruído e desperdício de tempo, hoje um dos recursos mais escassos na ciência. Filtros claros que separem o trigo do joio  e que não exponham os investigadores a marketing agressivo ou a promessas fúteis de publicação rápida, são fundamentais. Afinal, milagres só na teologia. O open access só cumpre verdadeiramente a sua missão quando é acompanhado por mecanismos de sinalização de qualidade e por uma literacia científica que permita otimizar pesquisas bibliográficas com critério e rigor.

A IA deve servir para facilitar processos, não para substituir o pensamento humano nem a responsabilidade científica

A Inteligência Artificial surge como mais uma promessa sedutora: maior rapidez de escrita, enorme capacidade de sistematização da informação, automatização de tarefas repetitivas. Usada com critério, é uma excelente ferramenta de apoio. O risco surge quando aliena o investigador do processo cocriativo de produção de conhecimento. É fundamental devolver ao investigador a propriedade intelectual e simbólica do seu trabalho. A IA deve servir para facilitar processos, não para substituir o pensamento humano nem a responsabilidade científica. A ciência não se faz apenas de sínteses e padrões, mas também de dúvida, contexto, interpretação e responsabilidade.

A investigação avança quando há diálogo, confronto de ideias e construção coletiva de sentido, não quando se transforma numa corrida por métricas

No meio de todas estas promessas de rapidez e produtividade, há algo que se perde silenciosamente: o tempo para colaborar. A investigação avança quando há diálogo, confronto de ideias e construção coletiva de sentido, não quando se transforma numa corrida por métricas, rankings ou num rally paper permanente. Como dizia um estimado amigo, a ciência constrói-se mais com pontes do que com pódios.

As novas ferramentas de trabalho na investigação são indispensáveis. Mas só farão sentido se forem usadas para libertar tempo, aprofundar o pensamento crítico e reforçar a colaboração. A tecnologia pode acelerar a ciência; só os investigadores podem dar-lhe sentido.

 

 

 

 

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